quarta-feira, 19 de abril de 2017

INFERNO

  Teve um dia, depois de assistir a mais um filme da Ghibli, Meu Amigo Totoro, que eu sonhei com o pior inferno que já pude sonhar. É um lugar que me dá arrepios até hoje e que realmente me fez acordar suando frio e pedindo segurança. E isso já faz um tempo bem razoável. Mas ultimamente descobri algo ainda pior em relação a ele.
  Vou começar falando do lugar em si. No meu sonho, era um lugar que eu entrava com uma perspectiva de que nada ia acontecer, mas que uma vez dentro, era engolido pelas paredes e chão, a escuridão tomando conta. Um súbito arrepio na espinha subiu logo que vi aquela escuridão: eu não estava só. Tinha algum ser que eu não sabia o que era nem o que queria, mas que começava a me perseguir e eu sabia com todas os átomos do meu corpo que se ele me pegasse, tudo ia piorar ainda mais. Corri. De alguma forma sabia que havia uma esperança pra sair dali: estar no lugar certo na hora certa. Mas eu não tinha ideia de onde poderia ser e isso mudava a cada minuto. Eu sabia que minha família e amigos estavam bem, e também sabia que eles não ficariam tão bem se eu desistisse ali. As paredes mudavam de lugar transformando-se num labirinto infinito e mutável. Vez ou outra uma luz de tocha aparecia junto de portas que davam para câmaras de tortura. Eu escutava gritos e lamentos a todo momento. Não daquele tipo de grito quando se leva um susto ou quando se está bravo, mas do tipo de grito de pura dor. E a cada vez mais que eu corria, mais eu me esgotava e nada mudava na minha situação, eu me esforçava a todo custo para conseguir sobreviver até ter aquela ínfima chance de estar no lugar certo na hora certa. Mas eu cansei. E a criatura que me perseguia finalmente me alcançou. E eu acordei.
  Talvez lendo assim pareça bastante só um conto (não tão) assustador. Mas me deixou aterrorizado viver aquilo em um sonho, e eu vou explicar o porquê. Foi um lugar que me assustou porque apesar do conceito de inferno, como aquele fundo do poço, ou um fim dos tempos, era um lugar que era meu. Ali, só quem estava naquela situação era eu, e isso já é outro ponto: solidão. Além disso, eu sabia que meus amigos e familiares estavam bem, mas que ficariam mal se eu não me recuperasse daquela situação, então eu PRECISAVA seguir em frente, se não por mim, por eles. E havia a possibilidade de sair dali, o que dava esperança. Entendem? Eu não podia desistir. Eu tinha tudo o que eu precisava pra seguir, a esperança de dias melhores e vontade de não decepcionar quem eu amo. Mas isso é que era o aterrorizante. Eu NÃO PODIA desistir. Não era uma opção. E eu precisei correr além da minha capacidade, precisei tentar até o último segundo até desabar e ser alcançado por algo muito mais assustador. Não era a pior situação possível, então eu não podia dizer "daqui eu não passo", eu podia passar, mas eu certamente não queria... e quando queria, pensava nos que me são caros. Acordei suando frio e sem conseguir dormir de novo tão cedo.
  Esses dias, ruminando pensamentos sobre isso como eu faço com frequência desde então, me abateu uma coisa bastante triste: eu comparei aquele lugar com a vida, com a depressão, com a falta de vontade de levantar de manhã da cama. E pior: eu consegui encaixar perfeitamente cada coisa do pesadelo com a realidade. E eu sigo mal desde então com esse pensamento.
  O ser que perseguia é a morte, o lugar, a depressão. A mutabilidade do lugar, a vida. A chance de sair representada no lugar e hora certa, bem, essa varia bastante.. de um amor até um conselho, de uma perspectiva de futuro até um chocolate num dia ruim. Os familiares e amigos ficam exatamente onde estão. E a capacidade de apenas ver escuridão e escutar lamentos é o peso da própria consciência quando se está numa situação depressiva.
  Sem mais, talvez eu viva uma depressão. :(

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