quarta-feira, 7 de junho de 2017

Um texto sobre decepção

Desde o primeiro dia eles me falaram que eu podia ser feliz. Que eu era livre pra escolher o que queria. Que o mundo é enorme e cheio de belezas. Desde que me lembro, sempre fui encorajado a perseguir meus sonhos e que eu tinha tudo pra alcançá-los.
Mas ninguém me contou que essa liberdade era uma mentira. Que a justiça que idealizamos é diferente da justiça natural. Que não escolhemos onde nascemos, ou em que condições. Ninguém me disse que eu podia sim perseguir meus sonhos, mas só depois de perder minha infância com pessoas que eu não gostava, de ser obrigado a estudar o que não queria, de viver sendo julgado por ser quem eu queria ser. Ninguém me disse que eu era livre, mas só depois de dedicar uma vida para começar a ter a possibilidade de entrar num mercado de trabalho que eu não concordava, para poder ter uma pequena autonomia em relação a quem me sustentava, e que eu era privilegiado por ter quem me sustentasse. Ninguém me disse que mesmo assim, eu teria q continuar pelo resto da vida trabalhando para poder ser livre, porque esse é o tipo de liberdade que se podia conseguir.
Ninguém me disse que eu ia ser escravo dos meus próprios sentimentos e que teria que morar onde não quero para poder ser feliz um dia. Um dia.
Ninguém me disse que esse mundo é lindo, mas que criamos livros e filmes e histórias de lugares muito melhores para aliviar e fugir do pesar dessa existência. Ninguém me disse. Ninguém me disse que as coisas mais bonitas desse mundo são passageiras e que acabam num piscar de olhos, e que elas podem machucar mais do que qualquer outra coisa. Ninguém disse que quase sempre eu não ia ter vontade de levantar da cama por achar que o mundo não tem nada pra me oferecer, ou vice versa.
Ninguém me disse que se eu quisesse suceder nesse mundo, teria que estudar sobre tudo e entender como somos governados. Ninguém me disse que não sobraria tempo pra ser feliz nesse processo.
Ninguém me disse. Mas me disseram pra correr atrás dos meus sonhos e ser feliz. Eu não podia, a liberdade que me prometeram não existia.

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